"criativaMENTE" - Uma leitura necessária para quem lida com gente de verdade! [CRÍTICA] Por Patrícia Siqueira Silveira Auditora-Fiscal do Trabalho - Ministério do Trabalho e Emprego

Ao longo de mais de vinte anos de atuação como Auditora-Fiscal do Trabalho, acompanhando processos de inclusão de pessoas com deficiência no mercado formal de trabalho, aprendi que a maior dificuldade não está nas normas. A legislação brasileira é clara, robusta e avançada. O desafio cotidiano está em algo menos mensurável: a forma como empresas, gestores e equipes lidam com a diferença quando ela se apresenta de maneira concreta e, muitas vezes, desconfortável. É nesse ponto que a leitura de criativaMENTE: Autismo e Mercado de Trabalho, de Ernane Alves, se mostra especialmente relevante.

O livro não é um manual sobre autismo, tampouco uma cartilha de boas práticas empresariais, e não pretende oferecer fórmulas prontas para empresas que desejam contratar pessoas autistas. Ernane não se propõe a ensinar conceitos técnicos, explicar diagnósticos ou apresentar soluções padronizadas - que, de fato, não existem - para a inclusão no trabalho. O que faz é narrar sua própria trajetória, expondo com franqueza as dificuldades, os limites, os sofrimentos e, também, as possibilidades que se abrem quando há espaço para o reconhecimento das singularidades. Essa escolha narrativa é, a meu ver, um dos grandes acertos da obra. Ao invés de falar sobre pessoas autistas, o autor fala a partir de sua experiência como pessoa autista, artista e trabalhador.

Ao longo do livro, Ernane deixa claro que sua trajetória profissional não foi construída apenas pelo talento ou pela força individual. Professores atentos, familiares que apostaram, mentores que enxergaram potencial onde outros viam problema e ambientes minimamente acolhedores foram decisivos. Não há, no entanto, idealização desses encontros. O autor mostra que o reconhecimento vem acompanhado de custos pessoais importantes.

Aqui reside uma das maiores virtudes do livro: o sucesso não é romantizado. Ernane evidencia que, mesmo quando há reconhecimento e inserção profissional, o esforço exigido da pessoa autista costuma ser maior do que o esforço realizado pelo ambiente que a acolhe. A permanência no trabalho aparece associada a altos níveis de autovigilância, desgaste emocional e à necessidade contínua de ajuste de comportamentos para atender expectativas sociais implícitas.

Ao mesmo tempo, o livro evidencia algo que ainda passa despercebido em muitos ambientes corporativos: a enorme riqueza que profissionais como Ernane podem representar para as organizações. Capacidade de observação apurada, pensamento criativo, profundidade analítica, compromisso com a qualidade e modos singulares de produzir nem sempre se encaixam nos padrões tradicionais de desempenho e comportamento esperados pelas empresas. Quando esses padrões são rígidos e pouco informados sobre a diversidade do espectro autista, profissionais altamente competentes podem ser facilmente rotulados como “inadequados”.

Para profissionais de recursos humanos, gestores, líderes de equipes e empresários, a leitura funciona como um exercício de deslocamento de olhar. Trata-se, sobretudo, de rever práticas cotidianas, expectativas implícitas e modelos rígidos de normalidade que, muitas vezes, levam à perda de talentos valiosos.

Do ponto de vista de quem atua há muitos anos na interface entre trabalho, inclusão e relações institucionais, criativaMENTE cumpre um papel especialmente relevante ao iluminar aquilo que as normas, por si sós, não alcançam. O livro mostra, com sensibilidade, que a inclusão se torna real quando encontra ambientes dispostos a reconhecer pessoas reais, com histórias, tempos e modos próprios de estar no mundo.

Mais do que oferecer soluções, a obra amplia o repertório de quem lida com pessoas no cotidiano do trabalho. E, em um mercado que fala cada vez mais em diversidade, inovação e criatividade, essa ampliação de olhar não é pouco: é condição para que talentos como Ernane não apenas ingressem, mas permaneçam, se desenvolvam e contribuam plenamente nas organizações.

Patrícia Siqueira Silveira

Auditora-Fiscal do Trabalho Coordenadora - Ministério do Trabalho e Emprego

Atuação na área de inclusão de pessoas com deficiência no mercado formal de trabalho